26/11/2017 17:25

Venda de migrantes na Líbia choca o mundo

 



Confiando em atravessadores que prometem levá-los à Europa, viagem de muitos na África acaba, geralmente, na Líbia; ali, eles são vendidos ou até mortos; políticos africanos exigem agora ação legal

Oitocentos dinares! Mil dinares! Mil e cem dinares! Quem dá mais? Por 1.200 dinares líbios – cerca de 2,6 mil reais – o negócio é finalmente fechado. Mas não é um carro, por exemplo, que troca de dono, e sim um grupo de jovens assustados provenientes da África Subsaariana.

As imagens, gravadas neste ano por um smartphone num mercado na Líbia, chegaram à emissora americana CNN, que investigou o fato. Em vários locais no interior do país e na costa do Mediterrâneo, os jornalistas encontraram verdadeiros mercados de escravos.
Por meio de imagens, eles puderam comprovar o que os conhecedores da região já advertiam há muito: a exploração ilimitada de migrantes que tentam chegar à Europa através da Líbia.
 

Duras reações na África

Especialmente na África Ocidental, de onde vem a maioria dos migrantes, os políticos demonstraram indignação. Mahamadou Issoufou, presidente do Níger, criticou duramente a situação na Líbia.

Issoufou convocou o embaixador líbio a comunicar o "protesto do Níger", exigindo, além disso, que a Corte Internacional de Justiça se ocupe do comércio escravagista no país do Norte da África.
Em Burkina Faso, o ministro das Relações Exteriores, Alpha Barry, disse em coletiva de imprensa que o embaixador do país na Líbia foi convocado a Ouagadougou para consultas.
O caso deve fazer parte da agenda da próxima cúpula da União Africana, que se realizará nos dias 29 e 30 de novembro na Costa do Marfim.
Também na Costa do Marfim, o escândalo em torno dos mercados de escravos na Líbia é motivo de polêmica: 155 migrantes marfinenses, incluindo 89 mulheres e menores de idade, foram levados de avião da Líbia para Abidjan.
Em São Paulo, 35% dos resgatados em ações de combate ao trabalho escravo são imigrantes

Representantes do governo marfinense criticaram o "estado de saúde deplorável" dos migrantes. Eles agora estariam se beneficiando de uma medida de reintegração financiada pela União Europeia.

Em Nova York, o secretário-geral da ONU, António Guterres, apelou na última segunda-feira (20/11) aos governantes líbios que investiguem os antecedentes do caso e levem os criminosos à Justiça.
"A escravidão não tem lugar no nosso mundo e esses atos estão entre os piores crimes contra a humanidade e entre as piores violações dos direitos humanos", disse Guterres, assinalando haver instruído todos os responsáveis na ONU a investigar as acusações.
O secretário-geral da ONU apelou a todos os países a aderirem à Convenção das Nações Unidas contra o Crime Organizado Transnacional (UNODC, na sigla em inglês) e a aprovarem o Protocolo Adicional de 2004 sobre o Tráfico de Seres Humanos.
Reconhecido internacionalmente e apoiado pelas Nações Unidas, o governo de unidade nacional na Líbia disse que vai averiguar as acusações. O vice-chefe de governo, Ahmed Metig, anunciou o estabelecimento de uma comissão de investigação. "Se as alegações forem verdadeiras, os responsáveis serão punidos", comunicou o Ministério do Exterior do governo líbio.
"Líbia era um inferno"
A maioria dos migrantes que se encontra na Líbia provém de países da África Ocidental, como Nigéria, Guiné, Burkina Faso re Costa do Marfim. A esperança de um futuro na Europa também leva muitos eritreus e somalis à fuga, principalmente através de Agadez, no norte do Níger. Eles confiam em atravessadores que prometem levá-los à costa do Mar Mediterrâneo e, de lá, até a Europa. Mas a viagem acaba, geralmente, na Líbia.
"A vida na Líbia era um inferno", disse Souleymane, um jovem migrante da Costa do Marfim, em conversa com a DW. Ele passou meses detido no país norte-africano. Somente por um acaso, Souleymane conseguiu retornar a seu país com o apoio da Organização Internacional para as Migrações (OIM): "Vivia em constante medo de ser apanhado por uma milícia e acabar sendo vendido como escravo."
Dependência completa
A luta contra o tráfico de seres humanos na região ocupa há muito tempo um lugar importante na agenda da ONU. Mas os avanços são pouco perceptíveis. Pelo contrário: o problema se intensificou nos últimos anos, apontou Othman Belbeisi, chefe da missão da ONU na Líbia, em entrevista à DW.
Segundo Belbeisi, os migrantes passam até três meses detidos e explorados por milícias em calabouços na Líbia: "O problema é que a maioria dos migrantes que fogem por motivos econômicos não possui nenhum documento. Eles entram na Líbia através de fronteiras não oficiais e se tornam completamente dependentes dos atravessadores. E eles então são muitas vezes sequestrados – e se o dinheiro do resgate não for pago, são vendidos, torturados ou até mortos."
Mas enquanto as rotas legais para a Europa não se tornarem mais acessíveis, a motivação de muitos jovens africanos para empreender a arriscada jornada ainda permanecerá grande. Segundo dados da OIM, neste ano, mais de 160 mil migrantes chegaram à Europa através do Mediterrâneo. Estimativas de funcionários da ONU na Líbia apontam que outras centenas de milhares aguardam a travessia para a Europa.
A OIM informou ainda que, desde janeiro último, quase 3 mil migrantes morreram durante a perigosa viagem marítima.

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