10/10/2018 07:24

Livro relata o trânsito de ideias que formaram a América Latina

 

Obra mostra a importância dos homens de letras para a formação da identidade cultural latino-americana
Por Redação - Editorias: Cultura 

No século 19 e até as primeiras décadas do século 20, as sociedades latino-americanas buscaram redefinir sua identidade e o seu lugar nos circuitos culturais em face da Europa. Nesse contexto, homens de letras, correspondentes, mestres de escola e editores contribuíram para impulsionar as relações sociais modernizadoras e formadoras das nações da América Latina.

É o que afirma a professora Gabriela Pellegrino Soares, do Departamento de História da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, na introdução do seu livro Escrita e Edição em Fronteiras Permeáveis – Mediadores Culturais na Formação da Nação e da Modernidade na América Latina (Século XIX e Primeiras Décadas do XX), que a Editora Intermeios lançou recentemente. A obra faz parte da Colelão Entr[H]istória, que publica a produção do Programa de Pós-Graduação em História Social do Departamento de História da FFLCH.

Para demonstrar a ação dos homens de letras na formação da identidade latino-americana, Gabriela recorre a raras fontes de pesquisa. Entre essas fontes está a Revue des Deux Mondes, criada em 1829 em Paris, na França. “Os impressos em crescente circulação internacional no século 19 – com o desenvolvimento dos empreendimentos comerciais no campo dos jornais, revistas e livros – constituem um canal importante para a projeção de novos repertórios de ideias, que se prestavam à análise dos grupos dirigentes hispano-americanos”, escreve a professora. “A Revue des Deus Mondes, um dos mais renomados e vigorosos periódicos europeus a atravessar o século 19, desempenhou um papel particularmente relevante nesse sentido.”
Ao longo do século 19, a revista colocou em prática a finalidade de promover vínculos culturais, políticos e econômicos entre o mundo europeu e o mundo “extraeuropeu”, destaca Gabriela. “O olhar universalista que guiava a publicação se voltou com frequência para a América Latina, objeto, além das narrativas de viagem, de artigos sobre acontecimentos políticos e dados econômicos, ou sobre as relações que esta guardava com a França”, acrescenta. “A Revue des Deux Mondes foi suporte para um amplo esforço de projeção imperial francesa, que encontrou espaço aberto, embora sujeito a filtros, em uma Argentina empenhada em remapear o território, a sociedade e o imaginário legados pelo colonizador.”

Outra rara fonte investigada por Gabriela são ilustrações publicadas em edições do século 19 de livros do escritor francês Júlio Verne (1828-1905), que retratam povos e costumes do Atlântico. Entre elas, a professora se dedica especialmente àquelas publicadas na primeira edição de Les Voyages Extraordinaires, a cargo do editor francês de livros infantis Hetzel. “Os artistas escolhidos por Hetzel para ilustrar Les Voyages Extraordinaires eram especialistas em estilo documentário. Esperava-se, antes de tudo, que fossem capazes de conferir veracidade à representação visual das paisagens, dos maquinários e das personagens descritos pelo texto”, escreve Gabriela. “Apesar do apreço pela observação, as fronteiras do real eram desafiadas pelos desenhistas, com a anuência do editor. Emprestando do teatro a técnica de iluminar a cena a partir de um foco de luz e de distribuir papéis específicos aos elementos em contracena, de forma a acentuar os contrastes entre eles, as imagens presentes em Les Voyages Extraordinaires ganhavam dramaticidade, confundindo os planos do real e do fantástico. Os cuidados técnicos, entretanto, tornavam confiável e verossímil a visão poética talhada em cada ilustração que, com a ajuda da legenda, estabelecia o sentido específico a presidir a leitura visual.”
O epistolário também é uma fonte importante para o conhecimento da formação cultural latino-americana. Em seu livro, Gabriela analisa em detalhes as cartas enviadas a seu irmão pelo soldado francês Augustin-Louis Frélaut, integrante das forças francesas que de 1862 a 1867 intervieram no México. “Frélaut descreveu ao irmão Fortuné os caminhos que o levavam a enveredar pelo México e os circuitos que comunicavam o território com a França”, escreve a professora. “A descrição torna palpáveis as temporalidades dos deslocamentos de homens, objetos e ideias, próprias de um tempo lento, de estradas em más condições que retardavam o avanço das tropas, de cartas que custavam três semanas para cruzar o Atlântico.”
Nas primeiras décadas do século 20, dois “inquéritos” realizados no Brasil e na Argentina demonstram a preocupação dos latino-americanos com a sua identidade. Um deles é conhecido como “Encuesta Láinez”, promovido pelo intelectual argentino Juan Ramos, que, em 1921, levou professores das escolas rurais das províncias argentinas a coletarem testemunhos de idosos sobre as tradições folclóricas daquele país. O outro “inquérito” teve como principal articulador o escritor brasileiro Monteiro Lobato, mentor do chamado “Inquérito do Saci”, feito pelo jornal O Estado de S. Paulo em 1917, em que consultou os leitores sobre o folclore brasileiro.

Como conta Gabriela, em 1916, Lobato ficou chocado com as esculturas de anões à moda alemã que decoravam o Jardim da Luz, em São Paulo. Ele publicou um artigo, na Revista do Brasil, denunciando o “desenraizamento cultural” e o hábito brasileiro de imitar o modelo europeu. “Em janeiro de 1917, ele defendeu o mesmo ponto de vista nas páginas de O Estado de S. Paulo, onde sugeria que se incorporassem elementos do folclore brasileiro nos cursos de arte. Em lugar de faunos, sátiros e bacantes de origem europeia, Marabá, caiporas, boitatás.”
Na edição de janeiro de 1917, Lobato publicou uma série de artigos convidando todos os leitores a colaborarem com informações sobre aquele duende genuinamente nacional, cuja denominação derivava da corruptela do nome tupi-guarani Çaa cy perereg. “O êxito foi absoluto. Incontáveis depoimentos chegaram de diferentes regiões do Brasil. O jornal os publicou em partes.”


“Monteiro Lobato apoiou-se nas modernas estratégias para capturar e sistematizar elementos do mundo cultural para colocar em evidência, por meio de um dos mais tradicionais e prestigiados jornais das elites ilustradas paulistas, um Brasil profundo e popular que se perdia na névoa do desinteresse dos intelectuais ainda muito afrancesados e da marcha da modernização”, enfatiza Gabriela. “Escravos emancipados pela Lei Áurea e seus descendentes dispersavam-se em rincões rurais distantes, onde houvesse espaço para uma pequena lavoura, na faina das fazendas ou nas bordas das cidades que cresciam. Antes que sucumbissem à exclusão social e econômica, seu legado cultural merecia ser conhecido e fixado, pois aí viveria uma certa brasilidade que começava a ganhar valor aos olhos de artistas e literatos”.
Escrita e Edição em Fronteiras Permeáveis – Mediadores Culturais na Formação da Nação e da Modernidade na América Latina (Século XIX e Primeiras Décadas do XX), de Gabriela Pellegrino Soares, Editora Intermeios, 210 páginas. 

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